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Deus e o sofrimento
Caro Internauta, na dor pela tragédia do Haiti, deixo-lhe este meu escrito de alguns anos atrás: Ainda o problema: Deus e o tsunami Estamos tristes e magoados pela terrível tragédia provocada pelo maremoto asiático. Tudo parece tão absurdo, tão sem sentido... Alguns insensatos apressam-se em colocar em xeque Deus e a religião. É necessário recordar que o problema do mal sempre angustiou a humanidade e questionou as pessoas de fé. Se Deus existe, se é bom, se seu coração é misericordioso, então por que o mal, sobretudo aquele que provoca a dor e o sofrimento dos inocentes e dos fracos? Na própria Sagrada Escritura, aparece de modo dramático essa dor incurável diante do mal. Basta ler o Livro de Jó e o Salmo 72/73. Os crentes nem são bobos nem insensíveis! O problema do mal é sério e real e, desde sempre, crentes e não-crentes debatem-se com ele. O que não é admissível é a leviandade de quem julga a questão simples e fácil, afirmando, simplesmente, que Deus não existe ou é indiferente ao mundo e ao seu destino. Não menos reprovável e vergonhosa é a afirmação de alguns pastores pentecostais, segundo quem a tragédia asiática foi um castigo pelo politeísmo dos países atingidos. Tal afirmação é pior que a dos ateus! Mas, resta o problema, tão gigante quanto os tsunamis assassinos: Por que o mal no mundo? Por que a dor do inocente? Eis alguns pontos: (1) A Escritura afirma que Deus é bondade, amor e vida. O Pai tudo criou através de seu Filho e para o seu Filho, eternamente. Então, tudo é essencialmente bom e manifesta a bondade de Deus. (2) Mas, a Bíblia não desconhece também a existência misteriosa do mal. Não explica sua origem; afirma somente que o mal está misteriosamente ligado à liberdade da criatura e se manifesta, sobretudo, no próprio homem que, desde o início de sua história, teima em fazer as coisas do seu modo, fechando-se para o Criador. (3) No entanto, perguntamos: Deus não age no mundo? Não poderia evitar o mal? Sim, Deus age no mundo. Mas, quem pode compreender a sua ação? Ele não é um ser entre os outros seres; não pode ser apreendido, sua ação não pode ser capturada pela nossa inteligência ou por métodos científicos... Ele está no mais íntimo e no mais além de tudo: está na flor que se abre, na vida que teima em voltar, na humilde gota de orvalho, na força do terremoto, na energia do tsunami... Sem ser nada disso, ultrapassa tudo isso, em tudo isso está presente. Não podemos compreendê-lo, penetrar o seu modo de orientar sua criação. A Escritura afirma isso, dizendo que Deus é Santo, isto é, Separado, Diferente de tudo quanto possamos imaginar. Diferente é Deus, Diferente e Incompreensível é sua ação! Por isso os judeus não pronunciam o Nome de Deus: Ele não pode ser enquadrado, dissecado, compreendido pela nossa lógica! (4) O mal não pode ser compreendido a partir da filosofia. Os pensamentos e critérios de Deus não são os nossos. O cristianismo só vê um modo de abordar de modo real e fecundo o problema do mal: olhar a atitude de Deus, que se manifestou em Jesus Cristo. No seu Filho, Deus envolveu-se com o mal, tomou-o sobre si, suportou-o! Ele, o Inocente, foi atingido em cheio pelo mal físico e moral... E o Pai calou-se, permitiu que seu Filho amado padecesse até a morte e morte de cruz! E, no entanto, o Pai se compadeceu do Filho, sofreu com ele, e o ressuscitou, fazendo-o Senhor e Cristo! Para nós, cristãos, Deus se compadece do mundo, padece com o mundo! Na vida e na cruz do Senhor, nós compreendemos que Deus não está longe de nós nas nossas pequenas ou grandes tragédias: silenciosamente, ele toma sobre si nossas dores e lágrimas... Como o Filho amado, que, diante da paixão e da cruz, não descreu no Pai, não voltou atrás na sua confiança inabalável, também os cristãos são chamados à atitude do Mestre. Somente unindo a dor do mundo à dor do Cristo é que podemos encontrar um sentido para o sofrimento nosso e do mundo... (5) Não sabemos o porquê de uma miséria trágica como a da Ásia... Aqueles povos não eram mais culpados que nós! No entanto, o próprio Jesus nos preveniu no Evangelho que esses acontecimentos dolorosos devem chamar-nos à conversão, pois nos recordam que a vida é fugaz, que o homem é pequeno, que não somos os donos da bola! Não podemos garantir a existência: somos como a erva que murcha, como a sombra que passa. Somente em Deus nossa vida permanece. E ele é confiável: o seu nome é Eternidade, o seu nome é Amor. E nós creremos nisso, aconteça o que acontecer, porque vimos e tocamos no amor e na fidelidade, manifestada no mais trágico dos acontecimentos: a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ali, Deus mostrou para sempre que nos ama, não nos deixa e, mesmo em silêncio, não é indiferente à nossa dor. Bendito seja ele para sempre, na nossa vida e na nossa morte! 
Escrito por Dom Henrique às 19h00
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Mesmo as trevas não são trevas para ti...
Leitura do Primeiro Livro de Samuel (1Sm 4,1-11) 1Naqueles dias, os filisteus reuniram-se para fazer guerra a Israel. Israel saiu ao encontro dos filisteus, acampando perto de Eben-Ezer, enquanto os filisteus, de sua parte, avançaram até Afec 2e puseram-se em linha de combate diante de Israel. Travada a batalha, Israel foi derrotado pelos filisteus. E morreram naquele combate, em campo aberto, cerca de quatro mil homens. 3O povo voltou ao acampamento e os anciãos de Israel disseram: “Por que fez o Senhor que hoje fôssemos vencidos pelos filisteus? Vamos a Silo buscar a arca da aliança do Senhor para que ela esteja no meio de nós e nos salve das mãos dos nossos inimigos”. 4Então o povo mandou trazer de Silo a arca da aliança do Senhor todo-poderoso, que se senta sobre querubins. Os dois filhos de Eli, Hofni e Fineias, acompanhavam a arca. 5Quando a arca da aliança do Senhor chegou ao acampamento, todo Israel rompeu num grande clamor, que ressoou por toda a terra. 6Os filisteus, ouvindo isso, diziam: “Que gritaria é essa tão grande no campo dos hebreus?” E souberam que a arca do Senhor tinha chegado ao acampamento. 7Os filisteus tiveram medo e disseram: “Deus chegou ao acampamento!” E lamentavam-se: 8“Ai de nós! Porque os hebreus não estavam com essa alegria nem ontem nem anteontem. Ai de nós! Quem nos salvará da mão desses deuses tão poderosos? Foram eles que afligiram o Egito com toda espécie de pragas no deserto. 9Mas coragem, filisteus, portai--vos como homens, para que não vos torneis escravos dos hebreus como eles o foram de vós! Sede homens e combatei! 10Então os filisteus lançaram--se à luta, Israel foi derrotado e cada um fugiu para a sua tenda. O massacre foi grande: do lado de Israel tombaram trinta mil homens. 11A arca de Deus foi capturada e morreram os dois filhos de Eli, Hofni e Finéias. As batalhas da vida existem para todos: crentes e ateus, santos e pecadores, cristãos e pagãos. Lágrimas e sorrisos e até mesmo desastres tremendos, como o atual terremoto do Haiti, fazem parte da vida humana... A questão é o modo diverso do crente e do ateu se colocarem: o crente vivencia as mais diversas realidades sempre diante de Deus, que ele sabe e crê ser Bom – o Bem, todo o Bem, o único Bem, Bem aparecido radicalmente na cruz e ressurreição do Senhor – ainda que a realidade traga tremendas manchas negras de mal físico e moral (como um terremoto, um tsunami ou o mensalão, seja ele o do Governo Lula ou do Governo Arruda). Israel, na perícope acima, encontra-se em mais uma escaramuça com os filisteus. Israel, o Povo de Deus, perde a batalha... Cerca de quatro mil homens morreram. Quantas mulheres terão ficado viúvas? Quantas crianças terão ficado órfãs? Israel sucumbe, como nós, tantas vezes... A Escritura Sagrada não nos diz claramente porque Israel perdeu aquela batalha, apesar de apontar a culpa de dois sacerdotes do Senhor, Hofni e Fineias, filhos de Eli, que se comportavam mal. Há tantas e tantas coisas no mundo, na vida, que não têm explicação clara e definitiva... Israel não duvida de Deus. Mandam buscar a Arca, certos de que, com ela, o Povo de Deus venceria. E todos exultam quando a Arca chega, porque agora sim, o Senhor estaria com eles. Trazendo a arca, os dois sacerdotes indignos: Hofni e Fineias... O resultado da batalha foi desastroso: “Israel foi derrotado e cada um fugiu para a sua tenda. O massacre foi grande: do lado de Israel tombaram trinta mil homens. A arca de Deus foi capturada e morreram os dois filhos de Eli, Hofni e Finéias”. Não! A Arca não é amuleto. Para o Deus vivo, não há amuleto: nem medalhas nem bíblias nem rezas fortes nem correntes milagrosas nem velas... As práticas e símbolos religiosos nunca podem servir para dobrar ou obrigar a Deus. Podem ser sinais do seu amor e misericórdia, de sua presença benévola, mas nunca realidades mágicas... Bendito sejas, Senhor nosso Deus! Bendito seja o teu nome na nossa alegria e na nossa tristeza! Bendito seja o teu amor e o teu poder na luz, como na treva! Bendito seja o teu saber infinito nas coisas belas da criação quanto nas realidades duras e tristes da existência! Bendito sejas, que falas na palavra de quando tudo é claro e no silêncio de quando tudo é escuro! Senhor santíssimo, Deus de Israel e de Jesus Cristo, Deus pressentido na Arca, presente pessoalmente em Jesus Cristo e sacramental e realmente palpável na Eucaristia – dez mil vezes maior e mais santa que a Arca santíssima –, teu nome é santo, tua providência é infinita, tua sabedoria nos ultrapassa! Adoramos-te e nas tuas mãos colocamos o que das tuas mãos benditas não pode escapar: o mundo, a história humana, a nossa vida, o nosso destino! Dá-nos sempre ter-te diante de nós e viver na tua presença! Dá-nos respeitar tua santidade e jamais duvidar de tua existência, de tua presença e de teu amor providente! A ti a glória, ó Pai, pelo teu único e divino Filho Jesus, a ti consubstancial, com o Espírito Santo Deus, pelos séculos dos séculos. Amém. 
Escrito por Dom Henrique às 11h31
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Último discurso de Zilda Arns - I
Caro Internauta, a Dra. Zilda Arns fazia o discurso abaixo, no Haiti, quando o lugar em que estava desabou pelo terremoto. Ela morreu, como você sabe. Aqui, suas últimas palavras; um belo exemplo de testemunho cristão. À Dra. Zilda e a tantos mortos na tragédia haitiana, o Senhor conceda salvação e vida eterna. 
Agradeço o honroso convite que me foi feito. Quero manifestar minha grande alegria por estar aqui com todos vocês em Porto Príncipe, Haiti, para participar da assembleia de religiosos. Como irmã de dois franciscanos e de três irmãs da Congregação das Irmãs Escolares de Nossa Senhora, estou muito feliz entre todos vocês. Dou graças a Deus por este momento. Na realidade, todos nós estamos aqui, neste encontro, porque sentimos dentro de nós um forte chamado para difundir ao mundo a boa notícia de Jesus. A boa notícia, transformada em ações concretas, é luz e esperança na conquista da paz nas famílias e nas nações. A construção da paz começa no coração das pessoas e tem seu fundamento no amor, que tem suas raízes na gestação e na primeira infância, e se transforma em fraternidade e responsabilidade social. A paz é uma conquista coletiva. Tem lugar quando encorajamos as pessoas, quando promovemos os valores culturais e éticos, as atitudes e práticas da busca do bem comum, que aprendemos com nosso mestre Jesus: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10.10). Espera-se que os agentes sociais continuem, além das referências éticas e morais de nossa Igreja, a ser como ela, mestres em orientar as famílias e comunidades, especialmente na área da saúde, educação e direitos humanos. Deste modo, podemos formar a massa crítica das comunidades cristãs e de outras religiões em favor da proteção da criança desde a concepção, e mais excepcionalmente até os seis anos, e do adolescente. Devemos nos esforçar para que nossos legisladores elaborem leis e os governos executem políticas públicas que incentivem a qualidade da educação integral das crianças e saúde, como prioridade absoluta. O povo seguiu Jesus porque ele tinha palavras de esperança. Assim, nós somos chamados para anunciar as experiências positivas e os caminhos que levam as comunidades, famílias e pais a serem mais justos e fraternos. Como discípulos e missionários, convidados a evangelizar, sabemos que força propulsora da transformação social está na prática do maior de todos os mandamentos da Lei de Deus: o amor, expressado na solidariedade fraterna, capaz de mover montanhas: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos” significa trabalhar pela inclusão social, fruto da Justiça; significa não ter preconceitos, aplicar nossos melhores talentos em favor da vida plena, prioritariamente daqueles que mais necessitam. Somar esforços para alcançar os objetivos, servir com humildade e misericórdia, sem perder a própria identidade. Todo esse caminho necessita de comunicação constante para iluminar, animar, fortalecer e democratizar nossa missão de fé e vida. Cremos que esta transformação social exige um investimento máximo de esforços para o desenvolvimento integral das crianças. Este desenvolvimento começa quanto a criança se encontra ainda no ventre sagrado da sua mãe. As crianças, quando estão bem cuidadas, são sementes de paz e esperança. Não existe ser humano mais perfeito, mais justo, mais solidário e sem preconceitos que as crianças. Não é por nada que disse Jesus: “… se vocês não ficarem iguais a estas crianças, não entrarão no Reino dos Céus” (Mt 18,3). E “deixem que as crianças venham a mim, pois deles é o Reino dos Céus” (Lc 18, 16). Hoje vou compartilhar com vocês uma verdadeira história de amor e inspiração divina, um sonho que se fez realidade. Como ocorreu com os discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35), “Jesus caminhava todo o tempo com eles. Ele foi reconhecido a partir do pão, símbolo da vida.” Em outra passagem, quando o barco no Mar da Galileia estava prestes a afundar sob violentas ondas, ali estava Jesus com eles, para acalmar a tormenta. (Mc 4, 35-41). Com alegria vou contar o que “eu vi e o que tenho testemunhado” a mais de 26 anos desde a fundação da Pastoral da Criança, em setembro de 1983. Aquilo que era uma semente, que começou na cidade de Florestópolis, Estado do Paraná, no Brasil, se converteu no Organismo de Ação Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, presente em 42 mil comunidades pobres e nas 7.000 paróquias de todas as Dioceses da Brasil. Por força da solidariedade fraterna, uma rede de 260 mil voluntários, dos quais 141 mil são líderes que vivem em comunidades pobres, 92% são mulheres, e participam permanentemente da construção de um mundo melhor, mais justo e mais fraterno, em serviço da vida e da esperança. Cada voluntário dedica em média 24 horas ao mês a esta missão transformadora de educar as mães e famílias pobres, compartilhar o pão da fraternidade e gerar conhecimentos para a transformação social. O objetivo da Pastoral da Criança é reduzir as causas da desnutrição e a mortalidade infantil, promover o desenvolvimento integral das crianças, desde sua concepção até o seis anos de idade. A primeira infância é uma etapa decisiva para a saúde, a educação, a consolidação dos valores culturais, o cultivo da fé e da cidadania com profundas repercussões por toda a vida. 
Escrito por Dom Henrique às 12h08
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Último discurso de Zilda Arns - II
Um pouco de história Sou a 12ª de 13 irmãos, cinco deles são religiosos. Três irmãs religiosas e dois sacerdotes franciscanos. Um deles é D. Paulo Evaristo, o Cardel Arns, Arcebispo emérito de São Paulo, conhecido por sua luta em favor dos direitos humanos, principalmente durante os vinte anos da ditadura militar do Brasil. Em maio de 1982, ao voltar de uma reunião da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, D. Paulo me chamou pelo telefone à noite. Naquela reunião, James Grant, então diretor executivo da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), falou com insistência sobre o soro oral. Considerado como o maior avanço da medicina no século passado, esse soro era capaz de salvar da morte milhões de crianças que poderiam morrer por desidratação devido a diarreia, uma das principais causas da mortalidade infantil no Brasil e no mundo. James Grant conseguiu convencer a D. Paulo para que motivasse a Igreja Católica a ensinar as mães a preparar e administrar o soro oral. Isto podia salvar milhares de vidas. Viúva fazia cinco anos, eu estava, naquela noite histórica, reunida com os cinco filhos, entre os nove e dezenove anos, quando recebi a chamada telefônica do meu irmão D. Paulo. Ele me contou o que havia passado e me pediu para refletir sobre ele. Como tornar realidade a proposta da Igreja de ajudar a reduzir a morte das crianças? Eu me senti feliz diante deste novo desafio. Era o que mais desejava: educar as mães e famílias para que soubessem cuidar melhor de seus filhos! Creio que Deus, de certo modo, havia me preparado para esta missão. Baseada na minha experiência como médica pediatra e especialista em saúde pública e nos muitos anos de direção dos serviços públicos de saúde materna-infantil, compreendi que, além de melhorar a qualidade dos serviços públicos e facilitar às mães e crianças o acesso a eles, o que mais falta fazia às mães pobres era o conhecimento e a solidariedade fraterna, para que pudessem colocar em prática algumas medidas básicas simples e capazes de salvar seus filhos da desnutrição e da morte, como por exemplo a educação alimentar e nutricional para as grávidas e seus filhos, a amamentação materna, as vacinas, o soro caseiro, o controle nutricional, além dos conhecimentos sobre sinais e sintomas de algumas doenças respiratórias e como as prevenir. Me vem à mente então a metodologia que utilizou Jesus para saciar a fome de 5.000 homens, sem contar as mulheres e as crianças. Era noite e tinham fome. Os discípulos disseram a Jesus que o melhor era que deixassem suas casa, mas Jesus ordenou: “Dai-lhes vós de comer”. O apóstolo Felipe disse a Jesus que não tinham dinheiro para comprar comida para tanta gente. André, irmão de Simão, sinalou a uma criança que tinha dois peixes e cinco pães. E Jesus mandou que se sentassem em grupos de cinquenta a cem pessoas (em pequenas comunidades). Então pensei: “Por que morrem milhões de crianças por motivos que podem facilmente ser prevenidos? O que faz com que eles se tornem criminosos e violentos na adolescência?” Recordei o inicio da minha carreira, quando me desafiei a querer diminuir a mortalidade infantil e a desnutrição. Vieram a minha mente milhares de mães que trocaram o leite materno pela mamadeira diluída em água suja. Outras mães que não vacinam seus filhos, quando não havia ainda cesta básica no Centro de Saúde. Outras mães que limpavam o nariz de todos os seus filhos com o mesmo pano, ou pegavam seus filhos e os humilhavam quando faziam xixi na cama. E, ainda mais triste, quando o pai chegava em casa bêbado. Ao ouvir o grito de fome e carinho de seus filhos, os venciam mesmo quando eram muito pequenos. Sabe-se, segundo resultados de pesquisas da OMS (Organização Mundial da Saúde), cuja publicação acompanhei em 1994, que as crianças maltratadas antes de um ano de idade têm uma tendência significativa para violência, e com frequência fazem crimes antes dos 25 anos. 
Escrito por Dom Henrique às 12h02
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Último discurso de Zilda Arns - III
A Igreja, que somos todos nós, que devíamos fazer? Tive a seguridade de seguir a metodologia de Jesus: organizara as pessoas em pequenas comunidades; identificar líderes, famílias com grávidas e crianças menores de seis anos. Os líderes que se dispusessem a trabalhar voluntariamente nessa missão de salvar vidas, seriam capacitados, no espírito da fé e vida, e preparados técnica e cientificamente, em ações básicas de saúde, nutrição, educação e cidadania. Seriam acompanhados em seu trabalho para que não se desanimassem. Teriam a missão de compartilhar com as famílias a solidariedade fraterna, o amor, os conhecimentos sobre os cuidados com as grávidas e as crianças, para que estes sejam saudáveis e felizes. Assim como Jesus ordenou que considerassem se todos estavam saciados, tínhamos que implantar um sistema de informações, com alguns indicadores de fácil compressão, inclusive para líderes analfabetos ou de baixa escolaridade. E vi diante de mim muitos gestos de sabedoria e amor apreendidos com o povo. Senti que ali estava a metodologia comunitária, pois podia se desenvolver em grande escala pelas dioceses, paróquias e comunidades. Não somente para salvar vidas de crianças, mas também para construir um mundo mais justo e fraterno. Seria a missão do “Bom Pastor”, que estão atentos a todas as ovelhas, mas dando prioridade àquelas que mais necessitam. Os pobres e os excluídos. Naquela maravilhosa noite, desenhei no papel uma comunidade pobre, onde identifique famílias com grávidas e filhos menores de seis anos e lideres comunitários, tanto católicos como de outras confissões e culturas, para levar adiante ações de maneira ecumênica, pois Jesus veio par que “todos tenham Vida e Vida em abundância” (João 10,10). Isto é o que precisa ser feito aqui no Haiti: fazer um mapa das comunidades pobres, identificar as crianças menores de 6 anos e suas famílias e lideres comunitários que desejam trabalhar voluntariamente. Desde a primeira experiência, a Pastoral da Criança cultivou a metodologia de Jesus, que é aplicada em grande escala. No Brasil, em mais de 40 mil comunidades, de 7.000 paróquias de todas as 272 diocese e prelazias. Está se estendendo a 20 países. Estes são, na América Latina e no Caribe: Argentina, Bolívia, Colômbia, Paraguai, Uruguai, Peru, Venezuela, Guatemala, Panamá, República Dominicana, Haiti, Honduras, Costa Rica e México; na África: Angola, Guiné-Bissau, Guiné Conakry e Moçambique, e na Ásia: Filipinas e Timor Leste. Para organizar melhor e compartilhar as informações e a solidariedade fraterna entre as mães e famílias vizinhas, as ações se baseiam em três estratégias de educação e comunicação: individual, de grupo e de massas. A Pastoral da Criança utiliza simultaneamente as três formas de comunicação para reforçar a mensagem, motivar e promover mudanças de conduta, fortalecendo as famílias com informações sobre como cuidar dos filhos, promovendo a solidariedade fraterna. A educação e comunicação individual se fazem através da “Visita Domiciliar Mensal nas famílias” com grávidas e filhos. Os líderes acompanham as famílias vizinhas nas comunidades mais pobres, nas áreas urbanas e rurais, nas aldeias indígenas e nos quilombos, e nas áreas ribeirinhas do Amazonas. Atravessam rios e mares, sobem e descem montes de encostas íngremes, caminham léguas, para ouvir os clamores das mães e famílias, para educar e fortalecer a paz, a fé e os conhecimentos. Trocam ideias sobre saúde e educação das crianças e das grávidas; ensinam e aprendem. Com muita confiança e ternura, fortalecem o tecido social das comunidade, o que leva a inclusão social. Motivados pela Campanha Mundial patrocinadas pela ONU (Organização das Nações Unidas), em 1999, com o tema “Uma vida sem violência é um direito nosso”, a Pastoral da Criança incorporou uma ação permanente de prevenção da violência com o lema “A Paz começa em casa”. Utilizou como uma das estratégias de comunicação a distribuição de seis milhões de folhetos com “10 Mandamentos para alcançar a paz na família”, debatíamos nas comunidades e nas escolas, do norte ao sul do país. As visitas, entre tantas outras ações, servem para promover a amamentação materna, uma escola de dialogo e compartilhar, principalmente quando se dá como alimento exclusivo até os seis meses e se continua dando como alimento preferencial além do um ano, inclusive além dos dois anos, complementarmente com outros alimentos saudáveis. A sucção adapta os músculos e ossos para uma boa dicção, uma melhor respiração e uma arcada dentária mais saudável. O carinho da mãe acariciando a cabeça do bebe melhora a conexão dos neurônios. A psicomotricidade da criança que mama no peito é mais avançada. Tanto é assim que se senta, anda e fala mais rápido, aprende melhor na escola. É fator essencial para o desenvolvimento afetivo e proteção da saúde dos bebês, para toda a vida. A solidariedade desponta, promovida pelas horas de contato direto com a mãe. Durante a visita domiciliar, a educação das mulheres e de seus familiares eleva a autoestima, estimula os cuidados pessoais e os cuidados com as crianças. Com esta educação das famílias se promove a inclusão social. A educação e a comunicação grupal têm lugar cada em cada mês em milhares de comunidades. Esse é o Dia da Celebração da Vida. Momento dedicado ao fortalecimento da fé e da amizade entre famílias. Além do controle nutricional, estão os brinquedos e as brincadeiras com as crianças e a orientação sobre a cidadania. Neste dia as mães compartilham práticas de aproveitamento adequado de alimentos da região de baixo custo e alto valor nutritivo. As frutas, folhas verdes, sementes e talos, que muitas vezes não são valorizados pelas famílias. Outra oportunidade de formação de grupo é a Reunião Mensal de Reflexão e Evolução dos líderes da comunidade. O objetivo principal desta reunião é discutir e estabelecer soluções para os problemas encontrados. Essas ações integram o sistema de informação da Pastoral da Criança para poder acompanhar os esforços realizados e seus resultados através de Indicadores. A desnutrição foi controlada. De mais de 50% de desnutridos no começo, hoje está em 3,1%. A mortalidade infantil foi drasticamente reduzida e hoje está em 13 mortos por mil nascidos vivos nas comunidades com Pastoral da Criança. O índice nacional é 2,33, mas se sabe que as mortes em comunidades pobres, onde estão a Pastoral da Criança, é maior que é na média geral. Em 1982, a mortalidade infantil no Brasil foi 82,8 por mil nascidos vivos. Estes resultados têm servido de base para conquistar entidades, como o Ministério da Saúde, Unicef, Banco HSBC, e outras empresas. Elas nos apoiam nas capacitações e em todas as atividades básicas de saúde, nutrição, educação e cidadania. O custo criança/mês é de menos de US$ 1. Em relação à educação e à comunicação de massas apresentará três experiências concretas de como a comunicação é um instrumento de defesa dos direitos da infância. 
Escrito por Dom Henrique às 12h00
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Último discurso de Zilda Arns - IV
Materiais impressos O material impresso foi concebido especificamente para ajudar a formação do líder da Pastoral da Criança. Os instrutores e os multiplicadores servem como ferramenta de trabalho na tarefa de guiar as famílias e comunidades sobre questões de saúde, nutrição, educação e cidadania. Além do Guia da Pastoral da Criança, se colocou em marcha publicações como o Manual do Facilitador, Brinquedos e Jogos, Comida e as Hortas Familiares, alfabetização de jovens e adultos e mobilização social. O jornal da Pastoral da Criança, com tiragem mensal de cerca de 280 mil — ou seja 3 milhões e 300 mil exemplares por ano — chega a todos os líderes da Pastoral da Criança. É uma ferramenta para a formação continua. O Boletim Dicas abarca questões relacionadas com a saúde e a educação para cidadania. Este especialmente concebido para os coordenadores e capacitadores da Pastoral da Criança. Cada publicação chega a 7.000 coordenadores. Para ajudar na vigilância das mulheres grávidas, a Pastoral da Criança criou os laços de amor, cartões com conselhos sobre a gravidez e um partos saudável. Outros materiais impressos de grande impacto social é o folheto com os 10 mandamentos para a Paz na Família, 12 milhões de folhetos foram distribuídos nos últimos anos. Além desses materiais impressos, se envia para as comunidades da Pastoral da Criança material para o trabalho de pesagem das crianças, objetos como balanças e também colheres de medir para a reidratarão oral e sacos de brinquedos para as crianças brincarem no dia da celebração da vida. Material de som e vídeo Outra área em que a Pastoral da Criança produz materiais é de som e a produção de filmes educativos. O Show ao vivo da Rádio da Vida, produzido e gravado no estúdio da Pastoral da Criança, chega a milhões de ouvintes em todo Brasil. Com os temas de saúde, de educação na primeira infância e a transformação social, o programa de rádio Viva a Vida se transmite semanalmente 3.740 vezes. Estamos “no ar”, de 2.310 horas semanais em todo Brasil. Além disso, o Programa Viva a Vida também se executa em vários tipos de sistemas de som de CD e aparados nas reuniões de grupo. A Pastoral da Criança também produz filmes educativos para melhorar e dar conhecimento de seu trabalho nas bases. Atualmente há 12 títulos produzidos que sem ocupam na prevenção da violência contra as crianças, comida saudável, na gravidez, e na participação dos Conselhos Municipais de Saúde, na preservação da AIDS e outros. 
Escrito por Dom Henrique às 11h58
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Último discurso de Zilda Arns - V
Campanhas A Pastoral da Infância realiza e colabora em várias campanhas para melhorar a qualidade de vida das mulheres grávidas, famílias e crianças. Estes são alguns exemplos: a. Campanhas de sais de reidratação oral b. Campanha de Certidão de Nascimento: a falta de informação, a distância dos escritórios e a burocracia fazem com que as pessoas fiquem sem uma certidão de nascimento. A mobilização nacional para o registro civil de nascimento, que une o Estado brasileiro e a sociedade, [busca] garantir a cada cidadão de pleno direito o nome e os direitos. c. Campanha para promover o aleitamento materno: o leite materno é um alimento perfeito que Deus colocou à disposição nos primeiros anos de vida. Permanentemente, a Pastoral da Criança promove o aleitamento materno exclusivo até os seis meses e, em seguida, continuar, com outros alimentos. Isso protege contra doenças, desenvolve melhor e fortalece a criança. d. Campanha de prevenção da tuberculose, pneumonia e hanseníase: as três doenças continuam a afetar muitas crianças e adultos em nosso país. A Pastoral da Criança prepara materiais específicos de comunicação para educar o público sobre sintomas, tratamento e meios de prevenção destas doenças. e. Campanha de Saneamento: o acesso à água potável e o tratamento de águas residuais contribuem para a redução da mortalidade infantil. A Pastoral da Criança, em colaboração com outros organismos, mobiliza a comunidade para a demanda por tais serviços a governos locais e usa os meios ao seu dispor para divulgar informações relacionadas ao saneamento. f. Campanha de HIV/Aids e Sífilis: o teste do HIV/Aids e sífilis durante o pré-natal permite a redução de 25% para 1% do risco de transmissão para o bebê. A Pastoral da Criança apoia a campanha nacional para o diagnóstico precoce destas doenças. g. Campanha para a Prevenção da morte súbita de bebês “Dormir de barriga para cima é mais seguro”: Com a finalidade de alertar sobre os riscos e evitar até 70% das mortes súbitas na infância, a Pastoral da Criança lançou esta grande campanha dirigida às famílias para que coloquem seus bebês para dormir de barriga para cima. h. Campanha de Prevenção do Abuso Infantil: Com esta campanha, a Pastoral da Criança esclarece as famílias e a sociedade sobre a importância da prevenção da violência, espancamentos e abuso sexual. Esta campanha inclui a distribuição de folheto com os dez mandamentos para a paz na família, como um incentivo para manter as crianças em uma atmosfera de paz e harmonia. i. Campanha - 20 de novembro, dia de oração e de ação para as crianças: A Pastoral da Criança participa dos esforços globais para a assistência integral e proteção a crianças e adolescentes, em colaboração com a Rede Mundial de Religiões para a Infância (GNRC). Em dezembro de 2009, completei 50 anos como médica e, antes de 2002, confesso que nunca tinha ouvido falar em qualquer programa da Unicef ou da Organização Mundial de Saúde (OMS), ou de outra agência da Organização das Nações Unidas (ONU), que estimulasse a espiritualidade como um componente do desenvolvimento pessoal. Como um dos membros da delegação do Brasil na Assembleia das Nações Unidas em 2002, que reuniu 186 países, em favor da infância, tive a satisfação de ouvir a definição final sobre o desenvolvimento da criança, que inclui o seu “desenvolvimento físico, social, mental, espiritual e cognitivo”. Este foi um avanço, e vem ao encontro do processo de formação e comunicação que fazemos na Pastoral da Criança. Neste processo, vê-se a pessoa de maneira completa e integrada em sua relação pessoal com o próximo, com o ambiente e com Deus. Estou convencida de que a solução da maioria dos problemas sociais está relacionada com a redução urgente das desigualdades sociais, com a eliminação da corrupção, a promoção da justiça social, o acesso à saúde e à educação de qualidade, ajuda mútua financeira e técnica entre as nações, para a preservação e restauração do meio ambiente. Como destaca o recente documento do papa Bento 16, “Caritas in veritate” (Caridade na verdade), “a natureza é um dom de Deus, e precisa ser usada com responsabilidade.” O mundo está despertando para os sinais do aquecimento global, que se manifesta nos desastres naturais, mais intensos e frequentes. A grande crise econômica demonstrou a inter-relação entre os países. Para não sucumbir, exige-se uma solidariedade entre as nações. É a solidariedade e a fraternidade aquilo de que o mundo precisa mais para sobreviver e encontrar o caminho da paz. Final Desde a sua fundação, a Pastoral da Criança investe na formação dos voluntários e no acompanhamento de crianças e mulheres grávidas, na família e na comunidade. Atualmente, existem 1.985.347 crianças, 108.342 mulheres grávidas de 1.553.717 famílias. Sua metodologia comunitária e seus resultados, assim como sua participação na promoção de políticas públicas com a presença em Conselhos de Saúde, Direitos da Criança e do Adolescente e em outros conselhos levaram a mudanças profundas no país, melhorando os indicadores sociais e econômicos. Os resultados do trabalho voluntário, com a mística do amor a Deus e ao próximo, em linha com nossa mãe terra, que a todos deve alimentar, nossos irmãos, os frutos e as flores, nossos rios, lagos, mares, florestas e animais. Tudo isso nos mostra como a sociedade organizada pode ser protagonista de sua transformação. Neste espírito, ao fortalecer os laços que ligam a comunidade, podemos encontrar as soluções para os graves problemas sociais que afetam as famílias pobres. Como os pássaros, que cuidam de seus filhos ao fazer um ninho no alto das árvores e nas montanhas, longe de predadores, ameaças e perigos, e mais perto de Deus, deveríamos cuidar de nossos filhos como um bem sagrado, promover o respeito a seus direitos e protegê-los. Muito Obrigada! Que Deus esteja convosco! Dra. Zilda Arns Neumann Médica pediatra e especialista em Saúde Pública Fundadora e Coordenadora da Pastoral da Criança Internacional Coordenadora Nacional da Pastoral da Pessoa Idosa 
Escrito por Dom Henrique às 11h56
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Atormentados pelo Sentido
Ainda o Cardeal de Gênova: Quando o homem não foge da pergunta, mas procede adiante com coragem e ânsia no caminho da procura, duas fortes tensões agitam-se dentro dele. Por um lado, a experiência de uma carência, de uma incompletude, quase de uma desorientação diante da imensidade do Absoluto e da fragilidade da condição histórica. Por outro lado, a percepção de uma Presença, de uma porta que convida a abrir, de uma espera de resgate, de uma vocação a prosseguir sem descanso. O encontro destas duas experiências diz que o homem não se contenta com o conhecimento “positivo” (palpável, mensurável, verificável em laboratório), mas quer ver mais além: uma tensão inata e, todavia, refreada pelo medo de aventurar-se em mar aberto ("fatti non foste a viver come bruti, ma per seguir virtute e conoscenza", Dante Inferno XXVI: “Não fostes feitos para viver como os irracionais, mas para seguirdes virtude e conhecimento”). Além da superfície, como recitam estes versos – intensos de sofrida esperança – de Ludwig Wittgenstein: “Eu sei que o mundo existe. Que eu estou nele, como o meu olho na própria órbita. Sei que nele há algo de problemático, que nós chamamos ‘sentido’. Que esse sentido não se encontra nele, mas fora dele. Crer em Deus significa ver que nem tudo se pode restringir à realidade do mundo visível. Crer em Deus significa ver que a vida tem um sentido”. (Quaderni 1914-1916, a cura di Amedeo G. Conte, Torino, 1964, p. 174). 
Escrito por Dom Henrique às 02h58
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Deus: uma questão que não pode ser suprimida
Eis umas interessantes palavras do Cardeal Ângelo Bagnasco, de Gênova: Sobretudo no mundo ocidental a questão sobre Deus é deixada fora dos caminhos habituais da cultura. Marginalizada e psicologicamente removida , ela se apresenta porém – insuprimível como está no profundo do coração humano – sob vestes falsas. Eis, então, o interesse crescente pelo paranormal, pelo oculto, por formas várias de religiosidade esotérica. Modalidades nas quais a dignidade da razão humana é mortificada e derrotada. Tais modalidades são em parte novas, mas, olhando bem, são a tentação de sempre: como Israel no deseto, diante das dificuldades e precárias incertezas, recorre-se a propostas aparentemente tranquilizadoras, dança-se ao redor do bezerro de ouro. Também o homem de hoje, o homem tecnológico, apesar do anúncio weberiano da era do desencanto, continua a cair vítima da idolatria: não somente nas formas – mascaradas, mas bem conhecidas – do dinheiro e do poder; também em novas formas de religiosidade, conjuntamente exótica e moderna, em cujo âmago encontram ressonância e momentânea saciedade as aspirações de superfície do nosso tempo. 
Escrito por Dom Henrique às 02h39
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Urgências para a Igreja hoje
Fala-se tanto em missão hoje em dia – é um imperativo sempre presente, pois que mandato do próprio Senhor. Mas, trata-se de algo muito mais amplo e profundo que um qualquer programa com tempo e método determinados. A missão é uma tensão, uma consciência, uma disponibilidade a compartilhar a alegria e experiência de crer e viver no senhor Jesus Cristo. Sendo assim, antes que de missão no sentido de ir em busca dos distantes, recuperar perdidos ou fazer novos cristãos na nossa sociedade descristianizada, deveríamos nos perguntar pelo nosso modo de aderir e viver o Cristo como Igreja. Isto posto, a verdadeira urgência hoje não é ir atrás dos distantes com piruetas e cambalhotas, mas fortalecer nossa vivência, aprofundar nossa identidade, recuperar nossa mística, tomar a sério o desafio de santidade, estreitar nossos laços fraternos, corrigir os abusos tremendos na nossa liturgia, formar nossos padres e seminaristas, fazer voltar ao radicalismo evangélico os nossos religiosos sem ideologias e práticas mundanas. Como poderíamos encantar alguém para Cristo quando nossas comunidades são desencantadas e desencantadoras? Como ousamos pensar seriamente em missão aos distantes quando até mesmo os que nos procuram saem de nós decepcionados e os que são dos nossos nos deixam, às vezes, escandalizados? Eis a urgência: paróquias mais vivas de Cristo, paróquias mais comunidades em Cristo, padres mais padres, religiosos mais religiosos, uma fé mais levada a sério, uma fé católica proclamada e vivida sem meios termos, uma moral cristã mais assumida, uma liturgia mais sacral, uma vida mais santa, cristãos que acreditam no que crêem. Daqui nascerá a missão: porque será transbordamento de uma experiência e de uma vida vivida em comunidade com o Senhor, porque outros sentir-se-ão atraídos pela beleza da vida Cristã pura e simples, doce transparência de Cristo no mundo... 
Escrito por Dom Henrique às 02h12
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Fala, Senhor, teu servo escuta!
Leitura do Primeiro Livro de Samuel (1Sm 3,1-10.19-20) Naqueles dias, 1o jovem Samuel servia ao Senhor na presença de Eli. Naquele tempo, a palavra do Senhor era rara e as visões não eram frequentes. 2Aconteceu que, um dia, Eli estava dormindo no seu quarto. Seus olhos começavam a enfraquecer, e já não conseguia enxergar. 3A lâmpada de Deus ainda não se tinha apagado e Samuel estava dormindo no templo do Senhor, onde se encontrava a arca de Deus. 4Então o Senhor chamou: “Samuel, Samuel!” Ele respondeu: “Estou aqui”. 5E correu para junto de Eli e disse: “Tu me chamaste, aqui estou”. Eli respondeu: “Eu não te chamei. Volta a dormir!” E ele foi deitar-se. 6O Senhor chamou de novo: “Samuel, Samuel!” E Samuel levantou-se, e foi ter com Eli e disse: “Tu me chamaste, aqui estou”. Ele respondeu: “Não te chamei, meu filho. Volta a dormir!” 7Samuel ainda não conhecia o Senhor, pois, até então, a palavra do Senhor não se lhe tinha manifestado. 8O Senhor chamou pela terceira vez: “Samuel, Samuel!” Ele levantou-se, foi para junto de Eli e disse: “Tu me chamaste, aqui estou”. Eli compreendeu que era o Senhor que estava chamando o menino. 9Então disse a Samuel: “Volta a deitar-te e, se alguém te chamar, responderás: ‘Senhor, fala que teu servo escuta!’” E Samuel voltou ao seu lugar para dormir. 10O Senhor veio, pôs-se junto dele e chamou-o como das outras vezes: “Samuel! Samuel!” E ele respondeu: “Fala, que teu servo escuta”. 19Samuel crescia, e o Senhor estava com ele. E não deixava cair por terra nenhuma de suas palavras. 20Todo Israel, desde Dã até Bersabeia, reconheceu que Samuel era um profeta do Senhor. É sempre fascinante o encontro com a Palavra de Deus! O frescor, a sensação de vida, o modo concreto no qual os autores sagrados nos transmitiram a Palavra do Senhor Deus, enche-nos o coração de doçura, alegria de viver e sentimento profundo da presença sagrada do Senhor... No texto acima, é encantadora a constatação que a Escritura faz: “Naquele tempo, a palavra do Senhor era rara e as visões não eram frequentes”... E por quê? – pergunta logo nossa mentalidade atual, cheia de lógica cartesiana... Quem sabe! Deus é livre para dirigir a história como lhe apraz; ele tem motivos que nós não conhecemos, tem caminhos que nos são desconhecidos, que nos ultrapassam. Naquele longínquo século XI aC a Palavra do Senhor era rara e as visões não eram frequentes... E, no entanto, o Senhor estava no meio do seu povo, o Senhor era uma Deus presente, o Senhor conhecia os seus e guiava os acontecimentos... Também hoje a palavra do Senhor é rara (apesar do palavreado fácil e farto dos profetas de araque, mensageiros de si próprios, enviados por si mesmos); também nos nossos dias as visões não são nada frequentes (apesar do monte de visionários que somente veem ilusões e mentiras). E, no entanto, o Senhor está conosco, a sua lâmpada sagrada não se apagou entre nós - ainda que muitos durmam num marasmo, num desânimo descrente, numa vida medíocre e de pecado -, a lâmpada do Senhor Deus ainda fumega, tão fraca e tão forte, e os seus sabem disso, e os seus caminham na sua santa presença... Que doçura escutar, no meio da noite, no meio do tempo da palavra rara, o Senhor irromper na treva e no silêncio e chamar um rapazinho pelo nome. Que estupendo, meu caro Leitor, quando cada um de nós – eu e você – consegue escutar a voz do Senhor na própria vida! Às vezes, como esse adolescente, confundimos e pensamos ser a voz do mundo ou uma voz simplesmente humana, talvez a do nosso próprio inconsciente. E, no entanto, com um bom discernimento, poderemos compreender, com espanto e consolo que é o sussurro dAquele mesmo que chamou Samuel. Ah, que graça: ele continua no mundo, ele age no mundo, ele dirige sua Palavra sagrada aos que o servem santamente e tremem na sua santa presença! Nossa resposta, então, somente pode ser a daquele mocinho de quase 3.200 anos atrás: “Fala, Senhor, que teu servo escuta!” 
Escrito por Dom Henrique às 01h56
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Descanso eterno dai-lhe, Senhor!
O terremoto de 7 graus na escala Richter que atingiu o Haiti nesta terça-feira, dia 12, matou Zilda Arns, 75, fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança, que integrava missão no país caribenho. O gabinete do senador Flávio Arns (PSDB-PR), sobrinho da Dra. Zilda, e a Pastoral da Criança confirmaram a informação na manhã desta quarta-feira (13). Além da morte de Zilda Arns, o Exército confirma morte de quatro brasileiros em terremoto no Haiti Zilda Arns, 75, fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa, estava em missão humanitária no país e está entre as vítimas do terremoto Médica pediatra e sanitarista, Zilda Arns era fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa, órgão de Ação Social Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Foi indicada por três vezes ao Prêmio Nobel da Paz. De acordo com o chefe de gabinete da Presidência da República, Gilberto Carvalho, a médica caminhava pelas ruas de Porto Príncipe com dois soldados do Exército brasileiro, quando ocorreu o terremoto. Zilda era irmã do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo. A médica viajou no último final de semana para o Haiti para encontro missionário da entidade CIFOR.US e estava hospedada na sede episcopal de Porto Príncipe. De acordo a assessoria de Zilda Arns, a coordenadora estava no Haiti para levar a metodologia de atendimento da Pastoral da Criança no combate à desnutrição. A Dra. Zilda deu-nos a todos um magnífico exemplo de competência profissional a serviço da humanidade inspirada na sua fé em Cristo nosso Senhor. Fica-nos a recordação de uma cristã autêntica, de uma profissional conscienciosa e, sobretudo, permanece a admirável Pastoral da Criança, que tanto bem tem feito ao Brasil e a outras partes do mundo. Oremos por ela; que o Senhor lhe conceda o descanso eterno na morada dos justos, no lugar da vida, do refrigério e da paz! Amém. Rezemos também por todas as vítimas desta tremenda catástrofe num país já miserável por tantos motivos. Que pelam isericórdia do Senhor, o mortos encontrem a vida eterna e os sobreviventes encontrem a força para reconstruir a vida. 
Escrito por Dom Henrique às 12h24
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Caminhar na tua Presença
Leitura do Primeiro Livro de Samuel (1Sm 1,9-20) Naqueles dias, 9Ana levantou-se, depois de ter comido e bebido em Silo. Ora, o sacerdote Eli estava sentado em sua cadeira à porta do templo do Senhor. 10Ana, com o coração cheio de amargura, orou ao Senhor, derramando copiosas lágrimas. 11E fez a seguinte promessa, dizendo: “Senhor todo-poderoso, se olhares para a aflição de tua serva e te lembrares de mim, se não te esqueceres da tua escrava e lhe deres um filho homem, eu o oferecerei a ti por todos os dias de sua vida, e não passará navalha sobre a sua cabeça”. 12Como ela demorasse nas preces diante do Senhor, Eli observava o movimento de seus lábios. 13Ana, porém, apenas murmurava; os seus lábios se moviam, mas não se podia ouvir palavra alguma. Eli julgou que ela estivesse embriagada; 14por isso lhe disse: “Até quando estarás bêbada? Vai curar essa bebedeira!” 15Ana, porém, respondeu: “Não é isso, meu senhor! Sou apenas uma mulher muito infeliz; não bebi vinho, nem outra coisa que possa embebedar, mas desafoguei a minha alma na presença do Senhor. 16Não julgues a tua serva como uma mulher perdida, pois foi pelo excesso da minha dor e da minha aflição que falei até agora”. 17Eli então lhe disse: “Vai em paz, e que o Deus de Israel te conceda o que lhe pediste”. 18Ela respondeu: “Que tua serva encontre graça diante dos teus olhos”. E a mulher foi embora, comeu e o seu semblante não era mais o mesmo. 19Na manhã seguinte, ela e seu marido levantaram-se muito cedo e, depois de terem adorado o Senhor, voltaram para sua casa em Ramá. Elcana uniu-se a Ana, sua mulher, e o Senhor lembrou-se dela. 20Ana concebeu e, no devido tempo, deu à luz um filho e chamou-o Samuel, porque – disse ela – “eu o pedi ao Senhor”. Feliz aquele que crê! Esse pode derramar seu coração na presença do Senhor, pode dirigir-se a Alguém, clamando do fundo de sua miséria. O que de verdade crê, sabe que a realidade tem um sentido e a existência não é presa de um destino cego. Feliz Ana, que pode elevar olhar e coração ao céu e exclamar: “Senhor, olha a minha aflição; não te esqueças de mim!” Crer é ser capaz de viver com os olhos e o coração em tensão para o Alto, é caminhar com os pés fincados no chão, mas sabendo que se caminha diante de Alguém que nos conhece e sonda com amor, Alguém para quem nossa vida tem sentido, Alguém que conhece nossa dor e nosso sonho... Feliz aquele que pode, como essa Ana, desafogar ou derramar o coração ante o Senhor! Agora, pensemos no mundo atual, que já não crê, que já não reza, que já não aceita caminhar, criança, na presença do Altíssimo: quanta solidão, quanto desespero... Lembro de um grande deste mundo, que certa vez me procurou para pedir conselho. Estava aniquilado, a pose tinha desaparecido: seu padrinho político tratava-o agora com desprezo e parecia que já não mais queria saber dele. E aquele lá, antes tão cheio de si, desmoronou, sentindo-se só, sem valor, abandonado, perdido... Ah, os filhos de Adão! Esses loucos degredados filhos de Eva! Se cressem de verdade, se levassem Deus a sério, se caminhassem na presença do Altíssimo! Quão pouco se lhes dariam os humores dos homens, os elogios dos grandes, os sorrisos e carícias dos poderosos... Quanto seriam livres, quanto não bajulariam, quanto seriam felizes e realizados, pesem as incertezas da vida... Feliz essa pobre Ana, que escuta o sacerdote do Senhor dizer-lhe: “Vai em paz!” E em paz ela foi, pois certa de ter sido ouvida por Aquele que tudo sabe, tudo ama e tudo pode... Seja esta atitude de Ana a atitude fundamental da nossa vida: caminhemos sempre na presença do Senhor, sem dele tirar nosso olhar, e a vida terá sempre um sentido verdadeiro, novo e profundo. Para dizer a verdade, a existência será uma suave festa. 
Escrito por Dom Henrique às 00h59
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Sinais...
Caro Internauta, há alguns temas importantes que merecem ser acompanhados por você: 1. A crise na Venezuela, que vai se alastrando. Sempre fiz críticas duras neste Blog ao Ditador da Venezuela e ao seu programa infame de instalar uma ditadura socialista naquele pobre país, fazendo dele o mesmo "paraíso" que é Cuba. A receita utilizada foi a mesma que Hitler usou e deu certo: utilizou a democracia para destruir a democracia. Como na época de Hitler o mundo se omitiu, do mesmo modo agora, a omissão é a mesma; e ainda há o apoio de governos como o brasileiro. É uma vergonha o que se está fazendo com a aquele país. Acompanhe. Só advirto para um perigo, ensinado pela história: quando um regime ditatorial está em crise, procura-se um inimigo externo como bode expiatório. Atenção: a Colômbia que se cuide, pois há uma grande probabilidade de o Ditador Chavez inventar uma guerra por algum motivo mentiroso. E o Brasil irá apoiá-lo ou ficar em cima do muro, como fez na vergonhosa questão de Honduras, criada pelo próprio Chavez... 2. Acompanhe com atenção o Decreto sobre os Direitos Humanos do Governo Lula: facilitação do aborto, promoção da retirada dos símbolos religiosos das repartições públicas, promoção das reivindicações justas ou injustas dos grupos homossexuais... É o programa para destruir os traços do que resta da cultura cristã dos brasileiros... Há ainda outros pontos tortos, como a censura à imprensa, o revanchismo com os militares, o apoio à baderna do MST... Leia sobre o tema, acompanhe! 3. Vá observando o filme sobre o Presidente Lula, financiado por empresas que têm negócios com o Governo. A obra é irreal e tem como fim a propaganda política neste ano eleitoral e a criação do mito Lula, o Santo. Qualquer mito em política é danoso. Recorde que o mito Perón acabou com a Argentina, que de país mais próspero da América Latina, tornou-se o que hoje é: uma república populista e pouco séria... 4. Acompanhe também a marcha da impunidade no nosso país: todos os escândalos no nosso Legislativo deram em nada. Mas, há também um fato interessante: por que no mensalão do Governo ninguém protestou e agora, no mensalão do Governo de Brasília, os movimentos sociais (MST, CUT e companhia) protestam com tanta veemência? É interessante, muito interessante, a moral dessa gente... 5. Cristãos têm sido assassinados em dezembro e janeiro últimos por muçulmanos na Etiópia e no Paquistão. Ninguém está nem aí! No Santuário de Fátima, em Portugal, apareceram pichações muçulmanas, desrespeitando até mesmo aquele lugar tão querido dos católicos... Ninguém liga... Vá observando... São sinais, são indicadores... Infelizmente, o Ocidente continua ignorando tudo isto. Permitido é tudo que seja anticristão; proibido mesmo é o cristianismo afirmar-se ou defender-se... 
Escrito por Dom Henrique às 12h49
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Um coracão teimosamente inquieto
Para você, caro Leitor, umas palavras do Cardeal Ângelo Bagnasco, de Gênova: “E o nosso coração está inquieto até que descanse em ti”. A penetrante observação de Santo Agostinho individua um aspecto saliente e constante da condição humana. A questão de Deus não é um interrogativo abstrato, mas penetra profundamente as fibras do homem interior, onde habita a Verdade. É pergunta que se faz insistente exatamente neste nosso tempo, quando processos diversos de remoção cultural tendem a colocá-la à margem. O progresso das ciências, sem dúvida, tornou mais agudo o nosso olhar sobre o universo: afinou a capacidade de explicar seus fenômenos, aumentou nossas possibilidades de dominá-lo e de destruí-lo; o próprio centro da constituição biologia do ser humano de certo modo foi atingido e colocado em perigo. Tudo isto contribui certamente para resolver muitos problemas; porém criam-se muitos outros, em âmbito científico, mas, sobretudo, atropológico e ético. 
Escrito por Dom Henrique às 23h54
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Crer não é compreender tudo...
Início do Primeiro Livro de Samuel (1Sm 1,1-8) 1Havia um homem sufita, oriundo de Ramá, no monte Efraim, que se chamava Elcana, filho de Joroam, filho de Eliú, filho de Tou, filho de Suf, efrainita. 2Elcana tinha duas mulheres; uma chamava-se Ana e a outra Fenena. Fenena tinha filhos; Ana, porém, não tinha. 3Todos os anos, esse homem subia da sua cidade para adorar e oferecer sacrifícios ao Senhor todo-poderoso, em Silo. Os dois filhos de Heli, Ofni e Finéias, eram sacerdotes do Senhor naquele santuário. 4Quando oferecia sacrifício, Elcana dava à sua mulher Fenena e a todos os seus filhos e filhas as porções que lhes cabiam. 5A Ana, embora a amasse, dava apenas uma porção escolhida, pois o Senhor a tinha deixado estéril. 6Sua rival também a magoava e atormentava, humilhando-a pelo fato de o Senhor a ter tornado estéril. 7E isso acontecia todos os anos. Sempre que subiam à casa do Senhor, ela a provocava do mesmo modo. E Ana chorava e não comia. 8Então, Elcana, seu marido, lhe disse: “Ana, por que estás chorando e não te alimentas? E por que se aflige o teu coração? Acaso não sou eu melhor para ti do que dez filhos?” Mistérios da vida, mistérios de Deus... Por que Ana era estéril e Fenena tão fecunda? Por que, naquele longínquo final de século XI antes de Cristo, naquele povo semi-bárbaro, recém-chegado do deserto, a vida pregava, mais uma vez, como ainda faria tantas outras, um drama assim: uma amada estéril e uma menos amada fecunda? E Ana chorava todos os anos e era humilhada por Fenena e pela vida, que a tornara estérila – maldição maior que a morte para qualquer mulher daqueles tempos... E, no entanto, por trás de um drama tão comum, tão desta vida, tão de todos os dias, havia uma Presença, um desígnio de Alguém que silenciosa e sabiamente tudo conduz; havia a presença de Deus! Esta é a diferença fundamental entre aquele tempo e hoje: continuam os dramas, os aparentes absurdos e os absurdos de fato, persistem as situações que escapam à nossa lógica. O homem da Bíblia, os cristãos verdadeiros, ainda quando não compreendam tudo, sabem que tudo está nas mãos do Senhor e a ele se abandonam e nele encontram consolo, força e coragem para caminhar, remediando o que pode ser remediado e aceitando com paz e sabedoria aquilo que ultrapassa nossa vontade e nossas possibilidades... O homem de hoje não faz assim. Seu orgulho não o permite! Primeiro, com falsa religiosidade, procura explicações como a reencarnação ou outras quais sejam teorias estapafúrdias, contanto que caibam na sua lógica estreita; ou, então, simplesmente grita que Deus não existe, pois que não se adequa à sua lógica, ao seu querer, à sua expectativa... E assim nossa época sem Deus vai perdendo sempre mais o senso de Deus, dAquele que nos ultrapassa, cuja ciência e desígnios sempre nos escaparão, pois Deus se revela aos humildes, mas se esconde dos soberbos, daqueles que lhe querem exigir contas... Senhor, Deus santo, sábio, grande e misericordioso, ajuda-nos a crer de verdade; ensina-nos a cravar os olhos naquele amor manifestado na cruz do teu Filho, para que nunca, nas mais diversas e dolorosas situações da vida, duvidemos da tua presença, da tua sabedoria e do teu amor por nós. Ajuda-nos, Senhor santo, a crermos de verdade e a compreender que nunca te compreenderemos totalmente. Basta que compreendamos o amor que já nos mostraste, de modo inequívoco, naquela cruz bendita! A ti a glória, pelo teu bendito Filho, na unidade do Santo Espírito. Amém. 
Escrito por Dom Henrique às 23h38
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Pensamentos...
Terminou o santo tempo do Natal, passaram as festas, as comemorações e expectativas da virada de ano. Voltamos à mesmice do tempo pequeno e rotineiro da vida cotidiana, do janeiro sempre preguiçoso. Dizer que “voltamos” não é bem exato, porque o tempo não volta: vai para frente, para adiante, com todas as mudanças e novidades que a vida e os costumes dos filhos de Adão vão inventando. E, no entanto, a sensação que fica é a de um mundo sempre mais disperso, sempre mais vazio, perdido em tantas “novidades” velhas, que exprimem somente a rasura de coração deste homem de hoje... Não tem jeito não: olho o mundo, e para mim é clara a sensação de desorientação da humanidade, de profunda crise de valores, de queda na profunda esparrela do relativismo, da superficialidade, da busca da satisfação das necessidades imediatas, sejam materiais que espirituais... Ontem mesmo, escutava aqui, defronte ao meu apartamento, o culto dominical de uma dessas seitas protestantes pentecostais: barulho infernal, músicas melosas e intimistas e emotividade à flor da pele. Só. É o que atrai hoje em dia – como atrai o consumismo, a busca do prazer, a diversão desenfreada, a aparência física, o ter... E eu me perguntava: qual o papel da Igreja num mundo assim? E vem-me sempre, cada vez mais convicta e teimosa e decidida, a mesma resposta: a Igreja deve manter firme sua identidade, deve manter firme seus princípios, em nada deve negociar seu próprio modo de ser; deve anunciar Jesus com toda a clareza e todas as exigências decorrentes do Evangelho. É absolutamente necessário que não nos preocupemos em ser aceitos por todos ou compreendidos por todos, mas sejamos claros que ser cristão exige uma real conversão, ruptura com o modo de pensar e de viver dominantes no mundo. Sempre foi assim; sempre será. Diálogo e capacidade de ouvir, sim; captulação e relativismo, não! Somente assim, no mundo velho, na mesmice dos tempos que mudam e nada transformam, porque tempo do homem velho, empedernido no velho pecado, os cristãos, por minoria que sejam, serão felizes na sua adesão a Cristo e, do âmago de sua felicidade serena e convicta, serão sal e luz para um mundo insosso e escuro. Se você é cristão cristão, se você é desses que acreditam realmente em Cristo como vida da nossa vida e única salvação do mundo, se você crê sincera e placidamente que Cristo sustenta sua Igreja católica, sua única e eterna esposa, por ele fundada e amada, então, com toda a certeza, 2010 será um ano de mil razões para crer, esperar, amar e trabalhar pelo Reino de Deus. 
Escrito por Dom Henrique às 18h42
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Oração de um povo peregrino
Para você, caro Leitor, esta bela oração de São Clemente I Romano, papa do século I: Nós vos rogamos, Senhor, que sejais o nosso sustentáculo e auxílio. Libertai os nossos que estão atribulados. Compadecei-vos dos pequeninos. Levantai os caídos. Sustentai os indigentes. Sarai os doentes. Fazei voltar os que desgarram do vosso povo. Dai de comer aos famintos. Tirai da prisão nossos cativos. Erguei os fracos, confortai os medrosos. Todas as nações vos conheçam, porque só vós sois Deus, e conheçam igualmente a Jesus Cristo, vosso Filho, e com elas também nós, o vosso povo e as ovelhas do vosso rebanho.

Escrito por Dom Henrique às 13h15
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